Com investimento superior a R$ 300 mil, o Governo do Estado, por meio do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC), avança na terceira etapa da restauração da Igreja de Nosso Senhor da Ascensão, localizada na aldeia Kiriri, em Mirandela, distrito de Banzaê. A intervenção contempla a recuperação de altares laterais, imagens sacras, objetos litúrgicos, peças em madeira, elementos metálicos e 14 quadros da Via Sacra do templo construído no início do século XVIII com participação direta do povo Kiriri.
Os serviços são executados por duas equipes do IPAC, formadas por seis restauradores que atuam em sistema de revezamento quinzenal. A restauração integra um Termo de Cooperação Técnica firmado entre o IPAC e a Prefeitura de Banzaê em 2025.
Durante a visita técnica ao local, o diretor-geral do IPAC, Marcelo Lemos Filho, destacou a dimensão histórica e simbólica da intervenção. “Cada imagem restaurada, cada detalhe recuperado e cada parede preservada carregam a história dos Kiriri, da fé dessa comunidade e da própria formação cultural do nosso estado”, afirmou.
A prefeita de Banzaê, Patrícia Almeida, ressaltou a mobilização da comunidade indígena em torno da recuperação do patrimônio. “Essa igreja é ancestral e faz parte da história do nosso povo. Não é importante apenas para os indígenas Kiriri, mas para toda Banzaê. Desde quando o telhado caiu existia esse desejo coletivo de salvar esse patrimônio. Hoje, ver esse trabalho avançando é emocionante”, declarou.
Preciosidades reveladas
Um dos principais achados durante o processo de restauração foi a descoberta da cor original do altar da igreja: um tom verde-água, identificado após a remoção de quatro camadas de tinta aplicadas ao longo dos anos.
“Quando chegamos, o altar estava pintado de azul forte. Fizemos a remoção química dessa camada e fomos descobrindo outras cores. Primeiro o bege, depois outro azul mais claro e, por fim, a cor original, esse verde-água belíssimo”, explicou Ana Rocha, restauradora do IPAC há 43 anos.
Segundo a especialista, o estado de conservação das peças exigiu um trabalho técnico minucioso. “O altar estava destruído e comprometido pelo tempo. Fizemos limpeza, emassamento, nivelamento e recuperação pictórica após toda a etapa da marcenaria. É um trabalho lento , extremamente cuidadoso, feito detalhe por detalhe”, disse.
Ana Rocha também destacou que a obra em Mirandela marca o encerramento de sua trajetória profissional no instituto. “Aqui em Banzaê será minha última obra antes da aposentadoria. Existe uma energia diferente aqui, uma ligação muito profunda da comunidade com esse espaço”, afirmou.
Restaurador há 30 anos, Adailton Ezequiel trabalha na recuperação de um dos quadros da Via Sacra. “A maioria das peças chegou com perdas, rachaduras e sem partes importantes. Tivemos que reconstruir áreas danificadas, fazer tratamento químico e remover camadas de tinta até encontrar os elementos originais. É um processo de descoberta constante”, explicou.
Responsável pela recuperação da prataria e de objetos metálicos, Washington Barache destacou o cuidado exigido no trabalho. “São peças muito antigas e delicadas. A limpeza é feita manualmente, com produtos específicos e materiais adequados para não danificar os objetos. Quando a gente trabalha com amor e entende a importância histórica daquilo, tudo muda”, afirmou.
Já o restaurador Onofre Menezes Lima ressaltou a importância da mão de obra especializada envolvida na obra. “Seguimos todas as normas técnicas de restauração do IPAC e do IPHAN. São profissionais que dedicam a vida inteira à preservação da memória da Bahia”, disse.
Expectativa da comunidade
Representando o povo Kiriri, o cacique Bernardino destacou a importância simbólica da restauração para a comunidade indígena. “Durante muito tempo, a gente achou que nunca conseguiria ver essa igreja restaurada. Hoje, acompanhar esse trabalho acontecendo diante dos nossos olhos é a realização de um sonho coletivo”, afirmou.
O líder indígena também ressaltou a relação da igreja com a ancestralidade do povo Kiriri. “Essa igreja foi construída pelos nossos antepassados. Ela carrega a memória e a fé do nosso povo. Ver esse cuidado sendo feito com tanto respeito emociona toda a comunidade”, concluiu.
A representante indígena Suely Kiriri acompanha diariamente as obras e afirma que a restauração representa um marco histórico para Mirandela. “A gente cresceu vendo essa igreja se desgastando aos poucos e muita gente já não acreditava que conseguiria ver tudo sendo restaurado. É emocionante acompanhar cada detalhe voltando ao lugar”, disse.
Obras em etapas
A recuperação da Igreja de Nosso Senhor da Ascensão vem sendo executada em diferentes etapas. Em 2021, o Governo da Bahia investiu R$ 500 mil na recuperação arquitetônica do imóvel, sob execução da Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia (Conder), em articulação com o IPAC e o Instituto Cátedra.
Entre as intervenções já concluídas estão a reconstrução do telhado, recuperação do piso em tijoleira, restauração de portas, janelas e do coro, além da implantação de novos sistemas elétricos e de iluminação e da requalificação do entorno da igreja.
Em 2023, um primeiro Termo de Cooperação entre o IPAC e a Prefeitura de Banzaê possibilitou o restauro do altar-mor, mobiliários e dez imagens sacras, entre elas as de Nossa Senhora Santana e dos arcanjos São Miguel, São Gabriel e São Rafael.
Para restauradores e integrantes da comunidade Kiriri, a obra representa não apenas a recuperação de um patrimônio histórico, mas a preservação de um espaço que mantém viva parte importante da memória cultural e religiosa de Mirandela e do povo indígena Kiriri.
Fonte
Ascom/Ipac